Caldas Brandão, PB

Mandioca BRS Kiriris e cultivares adaptadas ao Semiárido: guia completo para Caldas Brandão

Mandioca cultivada no semiárido nordestino

Mandioca BRS Kiriris e cultivares adaptadas ao Semiárido: guia completo para Caldas Brandão

A mandioca é a base da alimentação do Nordeste brasileiro há mais de 500 anos. No Agreste da Borborema, ela está presente em praticamente toda propriedade rural — seja para consumo próprio, para farinha ou para venda na feira de Caldas Brandão. Mas nem todo produtor sabe que a escolha da cultivar certa pode dobrar a produtividade sem aumentar a área plantada. É aí que entra a BRS Kiriris, a variedade mais plantada no semiárido brasileiro.

Neste guia, vamos detalhar tudo o que o produtor de Caldas Brandão precisa saber sobre a BRS Kiriris e outras cultivares adaptadas ao semiárido paraibano: características técnicas, comparativo entre variedades, passo a passo do plantio, manejo, custos, comercialização e os erres mais comuns que reduzem a produtividade. Se você ainda não conferiu, leia também nosso calendário de plantio para o Agreste.

O que é a BRS Kiriris e por que ela mudou a mandiocultura nordestina

A BRS Kiriris é uma cultivar de mandioca lançada pela EMBRAPA Mandioca e Fruticultura (Cruz das Almas, BA) em 2003, especificamente para as condições do semiárido nordestino. O nome "Kiriris" homenageia os indígenas Kiriris que habitavam o território onde hoje fica a região de Ribeira do Pombal, na Bahia — zona de transição entre o Agreste e o Sertão, com clima semelhante ao de Caldas Brandão.

Antes da BRS Kiriris, a maioria dos produtores plantava a variedade "Cacau" (ou "Cacauzinha"), uma mandioca tradicional do Agreste que produz bem em anos de chuva normal, mas é suscetível à bacteriose — uma doença causada pela bactéria Xanthomonas axonopodis pv. manihotis que dizimou plantios inteiros nos anos 1990. A BRS Kiriris foi desenvolvida justamente para resolver esse problema: tem resistência alta à bacteriose e produtividade quase dobro da variedade Cacau.

Desde o lançamento, a BRS Kiriris se tornou a cultivar mais plantada no semiárido brasileiro, ocupando mais de 40% da área de mandioca no Nordeste segundo dados da EMBRAPA. Em Caldas Brandão e região do Agreste da Borborema, é difícil encontrar um produtor que ainda não experimentou a Kiriris.

Características técnicas da BRS Kiriris

  • Produtividade média: 20-25 toneladas por hectare (t/ha) em condições adequadas de solo e chuva. Em anos de seca, pode cair para 12-15 t/ha, mas ainda assim supera a Cacau.
  • Tipo de uso: ideal para farinha e fecularia (indústria), mas também serve para mesa (mandioca de copa) por ter polpa branca e boa cocção.
  • Teor de massa seca: 38-40% — excelente para farinha. Quanto maior a massa seca, maior o rendimento de farinha por tonelada de raiz.
  • Ciclo: 12 a 15 meses (precoce para indústria). Em condições de seca, pode chegar a 18 meses.
  • Resistência à bacteriose: alta — principal vantagem sobre a Cacau.
  • Adaptação climática: desenvolvida para 400-800 mm de chuva/ano, exatamente o regime de Caldas Brandão (média ~428 mm/ano).
  • Cor da polpa: branca, ideal para farinha branca de melhor preço.
  • Hábito de ramificação: ereto a semiereto, facilita o manejo e a colheita mecanizada ou manual.

Comparativo: BRS Kiriris vs outras cultivares do semiárido

A EMBRAPA lançou outras cultivares além da Kiriris. Veja o comparativo das principais opções disponíveis para o produtor de Caldas Brandão:

Cultivar Produtividade
(t/ha)
Massa seca Resistência
à bacteriose
Ciclo
(meses)
Origem Indicação
BRS Kiriris 20-25 38% Alta 12-15 EMBRAPA Farinha e indústria
BRS Gema de Ovo 18-22 40% Alta 14-16 EMBRAPA Fecularia
BRS Poti Branca 16-20 36% Média 10-12 EMBRAPA Mesa (precoce)
BRS Caipira 15-19 35% Alta 12-14 EMBRAPA Mesa e farinha
Cacau (tradicional) 10-14 32% Baixa 14-18 Regional Mesa (risco)

Fonte: EMBRAPA Mandioca e Fruticultura — Catálogo de cultivares. Produtividades referem-se a condições experimentais com manejo recomendado. No Agreste paraibano, a produtividade real varia conforme chuva, solo e manejo.

Qual escolher? Para quem quer produzir farinha (a principal destinada da mandioca em Caldas Brandão), a BRS Kiriris é a melhor opção. Para quem quer mandioca de mesa (vender na feira para consumo doméstico), a BRS Poti Branca é mais precoce (10-12 meses) e tem melhor aparência. Para fecularia (produção de polvilho), a BRS Gema de Ovo tem o maior teor de massa seca (40%).

Passo a passo: como plantar BRS Kiriris em Caldas Brandão

1. Escolha da área e preparo do solo

A mandioca adapta-se a diversos solos, mas prefere argilosos a arenosos, bem drenados, com pH entre 5,5 e 6,5. Evite áreas encharcadas (a mandioca apodrece em solo saturado). Em Caldas Brandão, os solos típicos do Agreste são Latossolos e Argissolos, que são adequados. O preparo inclui aração (15-20 cm) e gradagem (nívelador) para destorrar e nivelar. Se a área tiver declive, plante em nível (curvas de nível) para evitar erosão.

2. Material de plantio (maniva-semente)

A mandioca não se planta por semente, mas por maniva — um pedaço de ramo (caule) de 15-20 cm de comprimento, com 5-7 gemas. A qualidade da maniva determina o sucesso do plantio:

  • Origem: obtenha manivas de plantas com 10-12 meses, sadias, sem sintomas de bacteriose (manchas marrons no caule).
  • Tamanho: 15-20 cm, com diâmetro de 2-3 cm.
  • Conservação: plante as manivas em até 7 dias após o corte. Se precisar armazenar, mantenha em local sombreado e arejado, nunca em sacos plásticos.
  • Quantidade por hectare: 12.500 a 16.700 manivas (conforme espaçamento).

3. Espaçamento e plantio

O espaçamento depende do sistema de produção:

  • Sistema solteiro: 1,0 m x 0,6 m = 16.666 plantas/ha (mais produtivo).
  • Consórcio com milho/feijão: 1,0 m x 0,8 m = 12.500 plantas/ha (deixa espaço para a outra cultura).
  • Mecanizado: 1,0 m x 0,8 m em sulcos espaçados de 1,0 m (para cultivo mecanizado).

O plantio deve ser feito em sulcos de 5-10 cm de profundidade. A maniva pode ser colocada horizontal (deitada no sulco) ou inclinada a 45° (com a ponta para cima). A horizontal é mais comum no semiárido por facilitar a colheita.

4. Época de plantio

No Agreste da Borborema, o plantio deve ser feito no início da estação chuvosa, entre março e maio. Consulte sempre o Zoneamento Agrícola de Risco Climático (ZARC) do Ministério da Agricultura para a janela oficial. Plantar antes das chuvas consolidadas é o maior erro que reduz a brotação das manivas.

5. Adubação

A mandioca é rústica, mas responde bem à adubação. Recomendação para 1 hectare:

  • No plantio: NPK 4-14-8 — 300 g por cova (ou 4-5 sacos de 50 kg/ha) incorporado no sulco.
  • Cobertura (60 dias após plantio): 20 g de ureia por planta (ou 250 kg de ureia/ha) aplicado em semicírculo a 20 cm da planta.
  • Matéria orgânica: se disponível, 5-10 t/ha de esterco bovino curtido no plantio reduz a necessidade de NPK químico.

6. Capina e manejo de plantas daninhas

A mandioca é sensível à competição nos primeiros 120 dias. Faça no mínimo 3 capinas nesse período:

  • 1ª capina: 30 dias após o plantio ( Quando as manivas brotaram).
  • 2ª capina: 60 dias (junto com a adubação de cobertura).
  • 3ª capina: 90-120 dias.

Após 120 dias, a mandioca cobre o solo e domina as invasoras. A partir daí, capinas esporádicas são suficientes. O uso de herbicidas é possível, mas deve seguir orientação técnica da EMPAER-PB.

7. Colheita

A colheita da BRS Kiriris ocorre aos 12-15 meses após o plantio, geralmente no início da estação seca seguinte (outubro-dezembro). Sinais de que a mandioca está pronta:

  • Folhas inferiores amareladas e queda natural.
  • Raízes grossas e firmes (ao arrancar uma planta-teste).
  • Casca da raiz se separando facilmente da polpa.

A colheita pode ser manual (arranquio com enxada, comum em pequenas áreas) ou semi-mecanizada (com aração lateral para soltar as raízes). Após a colheita, processe a mandioca em até 48 horas para evitar deterioração (a mandioca fresca apodrece rápido se não for processada).

Custo de produção estimado (1 hectare, Caldas Brandão, 2026)

Item Custo (R$)
Manivas (1.500 ramas) R$ 450
Preparo do solo (aração + gradagem) R$ 600
Mão de obra de plantio R$ 800
Insumos (NPK, ureia, defensivos) R$ 750
Capinas (3 passagens) R$ 600
Colheita manual R$ 800
Total R$ 4.000/ha

Estimativa para 2026, baseada em custos médios do Agreste paraibano. Valores podem variar conforme disponibilidade de mão de obra e insumos na região.

Receita esperada

Com produtividade de 20 t/ha (conservadora para BRS Kiriris bem manejada) e preço médio de R$ 1,20/kg de raiz in natura:

  • Receita bruta: 20.000 kg x R$ 1,20 = R$ 24.000/ha
  • Custo total: R$ 4.000/ha
  • Lucro bruto: R$ 20.000/ha
  • Margem de lucro: 83%

Se o produtor processar a mandioca em farinha (rendimento de ~30%), o valor agregado aumenta: 20 t de raiz produzem 6 t de farinha. Com farinha a R$ 4,00/kg, a receita sobe para R$ 24.000/ha de farinha — o mesmo valor da raiz, mas com mais valor agregado e possibilidade de armazenar por meses (a farinha não deteriora como a raiz). Conheça nosso guia sobre armazenamento de grãos em pequenas propriedades.

Erros comuns que reduzem a produtividade

  1. Plantar manivas de qualidade duvidosa: manivas velhas, finas ou doentes brotam mal e reduzem a produtividade em 30-50%. Sempre obtenha manivas de plantas sadias de 10-12 meses.
  2. Plantar antes das chuvas: a maniva precisa de umidade no solo para brotar. Plantar em solo seco é perder 40-60% do stand.
  3. Não fazer adubação de cobertura: sem a ureia aos 60 dias, a planta cresce pouco e a raiz fica fina.
  4. Colher antes do tempo: mandioca colhida aos 8-10 meses tem baixo teor de massa seca e rende menos farinha.
  5. Deixar a mandioca no solo após a colheita: a raiz deteriora em 48h. Se não for processar imediatamente, descasque e congele, ou processe em farinha imediatamente.

Doenças e pragas principais

As principais ameaças à mandiocultura no semiárido paraibano são:

  • Bacteriose (Xanthomonas axonopodis pv. manihotis): a doença mais grave. Causa murcha, seca de ramos e perda de raízes. Prevenção: usar cultivares resistentes (BRS Kiriris, BRS Gema de Ovo), plantar manivas sadias, evitar ferimentos nas plantas.
  • Vassoura-de-bruxa (Sphaceloma manihoticola): fungo que deforma ramos e reduz produção. Prevenção: usar manivas sadias, remover plantas doentes. A EMBRAPA mantém uma página especial sobre a doença.
  • Ácaros e cochonilhas: sugam a seiva e enfraquecem a planta. Controle com óleo mineral ou inseticida recomendado pela EMPAER-PB.
  • Formigas (saúva e quenqué): cortam as folhas jovens e podem dizimar um plantio novo em dias. Controle com isca formicida granulada.

Comercialização: onde vender a mandioca em Caldas Brandão

Os principais canais de venda para o produtor de mandioca do Agreste da Borborema são:

  • Feira livre de Caldas Brandão: venda direta de raiz in natura para o consumidor. Preço mais alto, mas volume limitado.
  • CEASA-PB (Campina Grande): venda por atacado para feirantes de outras cidades. Maior volume, preço de mercado.
  • Fecularias e farinheiras: venda de raiz para processamento industrial. Preço por tonelada, contratos por safra.
  • PAA e PNAE: o Programa de Aquisição de Alimentos e o Programa Nacional de Alimentação Escolar compram mandioca e farinha de produtores familiares a preço mínimo garantido. Veja como em PAA e PNAE: como vender para o governo.
  • Farinha artesanal: se o produtor tiver uma casa de farinha, pode processar e vender farinha direta ao consumidor, com margem muito maior.

Fontes oficiais

Resumo

A BRS Kiriris é a melhor opção de cultivar de mandioca para quem produz no Agreste da Borborema. Com resistência à bacteriose, produtividade de 20-25 t/ha e adaptação ao regime de chuva de Caldas Brandão, ela supera largamente a variedade tradicional Cacau. O sucesso, porém, depende do manejo: manivas sadias, plantio na época certa, adubação de cobertura, capinas nos primeiros 120 dias e colheita no tempo certo. Com R$ 4.000 de investimento por hectare e receita de R$ 24.000, a margem de 83% coloca a mandioca entre as culturas mais rentáveis do semiárido paraibano.

Se você ainda planta a variedade Cacau, considere migrar para a BRS Kiriris na próxima safra. A diferença de produtividade paga a troca já no primeiro ano. E se quiser diversificar, veja também nossos guias sobre palma forrageira e como proteger a lavoura da seca.

HF
Sobre o autor
Hermano Fernandes

Engenheiro civil com formação em projetos estruturais e construção civil. Cursou Ciências Agrárias, acumulando experiência em manejo de recursos naturais e práticas agrícolas no semiárido paraibano. Atua em projetos de sustentabilidade e impacto social na agricultura familiar do Agreste da Borborema.

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